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Nota de repúdio contra o discurso de ódio às mulheres no cenário político

Publicado em 23 outubro de 2026 às 22:29

Nota de repúdio contra o discurso de ódio às mulheres no cenário político

A  Comissão Mulheres e Relações de Gênero, por meio dos Grupos de Gênero do Conselho Regional de Psicologia da Bahia (CRP-03), vêm a público reafirmar a importância da participação política das mulheres e manifestar seu repúdio aos discursos de ódio dirigidos a elas e aos seus direitos no cenário político atual.

O voto feminino no Brasil só foi possível no ano de 1932, com o Decreto 21.076, do então presidente Getúlio Vargas. Neste ano eleitoral, somos a maioria entre os eleitores. Segundo dados do Tribunal Superior eleitoral¹ em 2026, as mulheres somam 83.877.126 eleitoras, ou 52,84% do total. Além do direito ao voto, as mulheres conquistaram, por meio de décadas de luta, o direito de serem votadas e de ocuparem espaços de poder e decisão. Os resultados das eleições no primeiro turno deste ano, mostraram que o número de mulheres a ocupar a Câmara dos Deputados e cadeiras do Senado cresceu: na Câmara, o número de mulheres eleitas aumentou em 21% (de 90 para 109), e no Senado Federal, foram eleitas 12 mulheres das 54 vagas disponíveis².

A participação das mulheres na política precisa ser celebrada como um direito fundamental e uma forma legítima de posicionamento. Mas também precisamos combater as ameaças aos direitos conquistados, que ainda não estão plenamente garantidos em um cenário marcado pelo patriarcado em que a lógica misógina e machista impera, inclusive entre as mulheres. As ameaças têm sido vistas por meio da violência política de gênero, sofrida pelas mulheres que adentram na política e pelos discursos de ódio proferidos contra pautas importantes para as mulheres.

Essa nota chama atenção para os discursos que viralizaram nas redes sociais, proferidos por mulheres eleitas e suas apoiadoras, afirmando que o “feminicídio não existe”, que “mulher não deve ter o direito ao voto”, que “mulher deve obedecer ao marido”, dentre outras no mesmo tom. Falas como essas são sérias ameaças, pois contribuem para legitimar desigualdades, naturalizar relações de dominação e influenciar a construção de propostas políticas contrarias à garantia e à ampliação dos direitos das mulheres.

Os discursos têm o poder de influenciar formas de pensar, sentir e agir, reverberando na constituição das subjetividades e nas relações sociais, concretamente, nas pautas políticas – e construções de políticas públicas. Os discursos de ódio, como os citados nesta nota, expressam violências simbólicas de gênero que funcionam para manter estereótipos que respaldam as desigualdades sociais e violências.

Chamamos atenção para os dados alarmantes das violências contra as mulheres no nosso país, que sofrem assédio sexual, violência patrimonial, física, psicológica, moral e vicária todos os dias. Desde 2015, quando o feminicídio foi reconhecido como um crime letal contra as mulheres, o Brasil registrou cerca de 1.568 casos, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (feito entre os anos de 2015 e 2025)³. As mulheres adultas e negras são as principais vítimas, e o principal autor do crime são seus companheiros. Ignorar os dados é ignorar a existência de um crime direcionado às mulheres pela sua condição de gênero, e a cultura machista que constrói masculinidades violentas, tóxicas e que se mantém a partir do comportamento de dominação das mulheres – especialmente nas relações de conjugalidade.

A luta dos movimentos sociais, em destaque aqui o movimento de mulheres e feministas são importantes para questionar o sistema patriarcal e requerer direitos. Vemos avançar nessa luta por direitos das mulheres que buscam construir, historicamente, uma sociedade menos desigual e batalham por justiça social, reparação econômica, cultural, além de reconhecimento e redistribuição de poder nos espaços sociais. A defesa da democracia passa pelo reconhecimento dessas conquistas, e garantia da participação plena e igualitária das mulheres nos espaços de poder e decisão. Tais conquistas não podem ser tratadas como concessões ou privilégios, mas como condições fundamentais para a igualdade e a justiça social.

Apesar das conquistas, as contrarreformas, neofascismo, extremismos políticos e religiosos ameaçam a liberdade e dignidade dos grupos sociais menos favorecidos, e aqui destacamos as mulheres. Diante desse cenário, não podemos nos calar quando os direitos humanos são ameaçados por políticas extremistas, discursos discriminatórios e práticas antidemocráticas.

Em períodos eleitorais, é fundamental reafirmar o compromisso com os direitos humanos, o enfrentamento às desigualdades de gênero e a rejeição de toda forma de violência e discriminação. Nesse sentido, o Código de Ética Profissional da Psicóloga e do Psicólogo determina como Princípios Fundamentais:

II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

III. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.

Desta forma, contribuímos para o fortalecimento da democracia e para a preservação e ampliação dos direitos conquistados pelas mulheres. É fundamental que nós, como profissionais da Psicologia, nos posicionemos criticamente diante de discursos de ódio e práticas antidemocráticas que ameaçam as conquistas históricas das mulheres.

A Resolução do Conselho Federal de Psicologia Nº 8/2020, que estabelece normas de exercício profissional da Psicologia em relação às violências de gênero, traz no seu artigo 2º que “A psicóloga e o psicólogo contribuirão para eliminar todas as formas de violência de gênero, em consonância com o Código de Ética do Profissional Psicólogo – CEPP”. Assim, chamamos a categoria para assumir esse compromisso e participar ativamente no combate aos discursos de ódio contra as mulheres, bem como no enfrentamento às diversas formas de violência de gênero ainda presente em nossa sociedade.

Convidamos a categoria a exercer a cidadania por meio do voto nesse segundo turno, atenta às propostas que garantam a manutenção e ampliação dos direitos adquiridos. Afinal, como afirmou Simone de Beauvoir: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”⁴

Referências

¹ Fonte: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-2026-em-numeros-158-7-milhoes-de-eleitores-estao-aptos-a-votar. Acesso em 9 out 2026

² Fonte https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/cresce-numero-de-mulheres-eleitas-para-o-congresso-nacional Acesso em 9 out 2026

³ Fonte https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/dados-e-fontes/pesquisa/retrato-dos-feminicidios-no-brasil-fbsp-2026/ Acesso em 9 out 2026

⁴ Simone de Beauvoir tem a obra “O segundo sexo” como uma das mais conhecidas, e a frase é referenciada com base nesta e em discursos da autora como nos registros de sua companheira de militância Claudine Monteil, em 1974.

Salvador,14 de outubro de 2026

Grupo de Trabalho Relações de Gênero e Psicologia

Grupo de Trabalho Política para as Mulheres

Comissão Mulheres e Relações de Gênero

Conselho Regional de Psicologia da Bahia

 

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